Dielson, meu amigo.
Esta é uma carta póstuma. Não sei se o póstumo aqui cabe para me referir a vc ou a mim. Obra póstuma, homenagem póstuma. Que te parece? Se parecer que se refere a mim, tudo bem, pois, hoje, um pedacinho da minha história tbém se foi com vc. Na verdade não foi, da mesma forma que vc tbém não. Está vivíssimo no meu coração e na minha memória, em lembranças que vão ser exibidas de tempos em tempos numa antológica retrospectiva particular, num cineminha frequentado por um público muito seleto.
Hoje, não páro de lembrar como vc conseguia dobrar tuas imensas pernas de garça naqueles banquinhos sem-vergonha do La Película.
Não consigo deixar de ver vc pedindo outra Antárctica, batendo com o dedo médio e balançando a latinha com o metal da abertura dentro.
Não posso deixar de ver vc se debruçando por cima do balcão para colocar ou pegar teus bagulhos - brincadeirinha! quase sempre livros e muuuitos papéis que vc carregava embaixo do braço e, abusadamente, despejava no 'guarda-volume' do meu balcão, sem pedir licença, como quem já entrou no coraçao de alguém. Nesse caso, no meu.
Como posso esquecer o dia que um ilustre desconhecido meio banguela pediu um expresso e grudou no balcão a noite toda por mais de seis anos? Onde arranjávamos tanto assunto, tanta conversa, que nunca nos entediávamos sem saber o que falar? Duro foi suportar o papo da nicotinamida e o cheiro do Marlboro vermelho, depois que parei de fumar; se bem que, verdade seja dita, vc diminuiu a quantidade e jogava a fumaça longe, como gentlemam que vc é.
Desculpa Dielson, mas agora tenho que dizer era. Vai levar um tempo para mudar o tempo verbal já que não posso mudar o tempo real.
Ah! meu amigo, e a nobreza de sua simplicidade? Própria de um homem digno. Sua nobreza era a sua dignidade, que tão bem combinava com suas blusas sociais de manga comprida fechadas no punho, postas para dentro da calça. Sempre! Não posso deixar de citar os sapatos sociais, evidentemente.
Ah! meu amigo meio anjo/meio homem. Sempre tão respeitador que parecia não saber, nem querer, namorar. Nisso nos parecíamos tbém. Nos víamos como pessoas apenas. Nem homem, nem mulher desejosos por assuntos amorosos. É como se nosso foco fosse sempre para os questionamentos mais profundos de nossas vidas e escolhas, certas ou erradas, que fizemos pela vida à fora. Tentávamos entender como devíamos viver a vida com o melhor de nós.
Ah! meu querido...em que esquina, que dizem não ter em Brasília, a gente se perdeu; que atalho vc tomou que ficou difícil te ver...eu sempre te quis tanto bem, mesmo quando não suportava as tuas chatices - mas eram zangas de irmão, sabendo que por ser irmão a permanência na vida já estava garantida. E sempre esteve. Mesmo quando depois de perder o contato, e me dizerem, com toda razao, que vc andava muito junkee, eu achei que vc ainda estava por perto, que era uma fase. Fase do menino que não cresceu por completo e resolveu ser l'enfant terrible, um dos Olvidados. Pensava eu que isso logo passaria. Ia cansar. Mas subestimamos o elemento Tempo, que tem vida própria e não está preocupado com nossos 'atrasos'. Ele passa muito rápido e se não estivermos atentos, perdemos a carona. Como sou eu que te escrevo isso sou eu a lamentar o fato, agora que te perdi, perdendo a carona do tempo. Mas poderia ser vc a me lamentar esses mesmos lamentos. Somos assim. Meio casca-grossa, ou como diz nosso Criador, povo de dura cerviz. Parece nossa griffe. Um estilo de vida. Burra, por sinal. E dói, viu? Tá doendo um bocado agora. Não estou acreditando ainda que vc partiu para longe do meu abraço, como meus dois irmãos. Da mesma forma como não acreditei quando a médica disse ontem que vc havia falecido. Acho que quando pedi para dar uma olhadinha em vc, era para ter certeza por mim mesma. 'Aquele papo dela tava muito estranho', quase inacreditável. E o meu coração tinha razão; porque Deus, nosso Pai querido, tinha uma carinhosa despedida para nós. Vc ressuscitou. Tá ouvindo? Voce res.sus.ci.tou para confirmar o segredo de Deus no meu coração e polemizar o veredito da médica, aliás, coisa que vc adora fazer: polemizar. Mas dessa vez amei sua polêmica, amei que seu coração atrevido pela fé discordou dela para ficar conosco mais um tempo e, saiba, a alegria que vc deu a mim, a seu irmão e a seu filho foi inesquecivel. Tá pensando que é qualquer pai, qualquer irmão e qualquer amigo que pode proporcionar e ser merecedor disso? Não, mesmo! Ainda tem alguma queixa? Não se atreva. Mas eu sei que não. Sei que queixas nunca mais, afinal vc voltou pra casa, voltou para o Pai e para o seu lugar, para sua verdadeira morada, que é nossa também; afinal, a casa do Pai tem muitas moradas, não é mesmo? E eu sei que vc sabe disso, pois, naquele dia, bravo comigo por causa da ridicula nicotinamida, vc me disse que era católico e tinha estudado em colégio de padres, e eu era uma carola crente. Não, foi carola evangélica. Pronto. Falei. Agora todo mundo sabe que vc brigou comigo. E olha que eu nem 'preguei' para vc, coisa da qual muito me envergonho e me arrependo, pois, talvez, vc depusesse as armas e chorasse comigo, nós dois, nossas escolhas mal-feitas, e talvez tivesse mudado o curso da história. Porque além de ser Super-Homem, Ele é Super-Filho-do Homem. O Todo Poderoso Que tudo pode e tudo quer fazer para nos ver melhor. Para não nos ver sofrer. Nós é que dizemos que não. E fazemos o contrário. Mas eu sei meu querido, meu amigo menino/homem. Eu sei que quem brigou comigo foi o menino assustado, perdido, querendo jogar pedras no céu. Mas essa rebeldia toda era prá chamar atenção do Pai; talvez por já querer voltar para casa, e tivesse vergonha de pedir, ou dizer que estava perdido. Mas Ele sabia, sabia com o amor com o qual Ele sempre te amou e cuidou. Então, na hora certa - não na da médica- Ele te carregou no colo, pois já tinha pronta a tua morada; e, hoje, mais cedo, depois de te sepultar, quando me deu uma saudade aguda, eu me disse logo em seguida, 'ah...eu tava esquecendo... depois a gente se encontra', pois o Abbá me garante que tem lugar para todo mundo, que Sua casa é maior que o Universo. É do tamanho do Amor. Assim, segui meu caminho e fui comprar umas coisinhas para comer, afinal, não comia quase nada desde ontem. Só emoçao. Por vc. Precisava dar uma aterrissada e cuidar do corpitcho aqui, como diz seu amigo, agora gnóstco, Marcos Araújo. Porque meu amigo...ninguém é de ferro. Vc sabe muito bem. Ah, sabe. E é bom que seja assim, afinal, ferro pesa muito para ascender aos céus. Sendo assim, está tudo muito bom. Por isso Deus descansou depois de Seu trabalho. Até um dia, amigo.
PS. Vc acha que pintei um quadro teu mais bonito porque vc partiu? Claro que não! ainda que isso fosse justificado - quase sempre por nossas culpas conscientes ou inconscientes - mas não é o caso. Cada palavra aqui, do que vivi com vc é verdadeira. A fase dos seus descaminhos, dos quais não participei, nada posso dizer; diga quem quiser, mas seja de uma forma ou de outra, o amor que ardia em seu coraçao jamais deixou de existir. Nem agora.Teu fruto permanece.Teus filhos hão de evidenciar o que digo, sobretudo Diego e, para completar essa ridícula (porque atrasada) mas real (porque sincera) homenagem, repito o que Thiago me respondeu quando disse a ele que Silvinha comentou que vc falava muito de nós para ela, evidenciando para mim, teu carinho por nós dois. Ele simplesmente falou: eu nunca tive dúvidas do amor dele. Leve isso com vc também. É muito mais do que tudo o que tentei te dizer aqui, com tantas palavras.
Tua amiga de sempre
Esta é uma carta póstuma. Não sei se o póstumo aqui cabe para me referir a vc ou a mim. Obra póstuma, homenagem póstuma. Que te parece? Se parecer que se refere a mim, tudo bem, pois, hoje, um pedacinho da minha história tbém se foi com vc. Na verdade não foi, da mesma forma que vc tbém não. Está vivíssimo no meu coração e na minha memória, em lembranças que vão ser exibidas de tempos em tempos numa antológica retrospectiva particular, num cineminha frequentado por um público muito seleto.
Hoje, não páro de lembrar como vc conseguia dobrar tuas imensas pernas de garça naqueles banquinhos sem-vergonha do La Película.
Não consigo deixar de ver vc pedindo outra Antárctica, batendo com o dedo médio e balançando a latinha com o metal da abertura dentro.
Não posso deixar de ver vc se debruçando por cima do balcão para colocar ou pegar teus bagulhos - brincadeirinha! quase sempre livros e muuuitos papéis que vc carregava embaixo do braço e, abusadamente, despejava no 'guarda-volume' do meu balcão, sem pedir licença, como quem já entrou no coraçao de alguém. Nesse caso, no meu.
Como posso esquecer o dia que um ilustre desconhecido meio banguela pediu um expresso e grudou no balcão a noite toda por mais de seis anos? Onde arranjávamos tanto assunto, tanta conversa, que nunca nos entediávamos sem saber o que falar? Duro foi suportar o papo da nicotinamida e o cheiro do Marlboro vermelho, depois que parei de fumar; se bem que, verdade seja dita, vc diminuiu a quantidade e jogava a fumaça longe, como gentlemam que vc é.
Desculpa Dielson, mas agora tenho que dizer era. Vai levar um tempo para mudar o tempo verbal já que não posso mudar o tempo real.
Ah! meu amigo, e a nobreza de sua simplicidade? Própria de um homem digno. Sua nobreza era a sua dignidade, que tão bem combinava com suas blusas sociais de manga comprida fechadas no punho, postas para dentro da calça. Sempre! Não posso deixar de citar os sapatos sociais, evidentemente.
Ah! meu amigo meio anjo/meio homem. Sempre tão respeitador que parecia não saber, nem querer, namorar. Nisso nos parecíamos tbém. Nos víamos como pessoas apenas. Nem homem, nem mulher desejosos por assuntos amorosos. É como se nosso foco fosse sempre para os questionamentos mais profundos de nossas vidas e escolhas, certas ou erradas, que fizemos pela vida à fora. Tentávamos entender como devíamos viver a vida com o melhor de nós.
Ah! meu querido...em que esquina, que dizem não ter em Brasília, a gente se perdeu; que atalho vc tomou que ficou difícil te ver...eu sempre te quis tanto bem, mesmo quando não suportava as tuas chatices - mas eram zangas de irmão, sabendo que por ser irmão a permanência na vida já estava garantida. E sempre esteve. Mesmo quando depois de perder o contato, e me dizerem, com toda razao, que vc andava muito junkee, eu achei que vc ainda estava por perto, que era uma fase. Fase do menino que não cresceu por completo e resolveu ser l'enfant terrible, um dos Olvidados. Pensava eu que isso logo passaria. Ia cansar. Mas subestimamos o elemento Tempo, que tem vida própria e não está preocupado com nossos 'atrasos'. Ele passa muito rápido e se não estivermos atentos, perdemos a carona. Como sou eu que te escrevo isso sou eu a lamentar o fato, agora que te perdi, perdendo a carona do tempo. Mas poderia ser vc a me lamentar esses mesmos lamentos. Somos assim. Meio casca-grossa, ou como diz nosso Criador, povo de dura cerviz. Parece nossa griffe. Um estilo de vida. Burra, por sinal. E dói, viu? Tá doendo um bocado agora. Não estou acreditando ainda que vc partiu para longe do meu abraço, como meus dois irmãos. Da mesma forma como não acreditei quando a médica disse ontem que vc havia falecido. Acho que quando pedi para dar uma olhadinha em vc, era para ter certeza por mim mesma. 'Aquele papo dela tava muito estranho', quase inacreditável. E o meu coração tinha razão; porque Deus, nosso Pai querido, tinha uma carinhosa despedida para nós. Vc ressuscitou. Tá ouvindo? Voce res.sus.ci.tou para confirmar o segredo de Deus no meu coração e polemizar o veredito da médica, aliás, coisa que vc adora fazer: polemizar. Mas dessa vez amei sua polêmica, amei que seu coração atrevido pela fé discordou dela para ficar conosco mais um tempo e, saiba, a alegria que vc deu a mim, a seu irmão e a seu filho foi inesquecivel. Tá pensando que é qualquer pai, qualquer irmão e qualquer amigo que pode proporcionar e ser merecedor disso? Não, mesmo! Ainda tem alguma queixa? Não se atreva. Mas eu sei que não. Sei que queixas nunca mais, afinal vc voltou pra casa, voltou para o Pai e para o seu lugar, para sua verdadeira morada, que é nossa também; afinal, a casa do Pai tem muitas moradas, não é mesmo? E eu sei que vc sabe disso, pois, naquele dia, bravo comigo por causa da ridicula nicotinamida, vc me disse que era católico e tinha estudado em colégio de padres, e eu era uma carola crente. Não, foi carola evangélica. Pronto. Falei. Agora todo mundo sabe que vc brigou comigo. E olha que eu nem 'preguei' para vc, coisa da qual muito me envergonho e me arrependo, pois, talvez, vc depusesse as armas e chorasse comigo, nós dois, nossas escolhas mal-feitas, e talvez tivesse mudado o curso da história. Porque além de ser Super-Homem, Ele é Super-Filho-do Homem. O Todo Poderoso Que tudo pode e tudo quer fazer para nos ver melhor. Para não nos ver sofrer. Nós é que dizemos que não. E fazemos o contrário. Mas eu sei meu querido, meu amigo menino/homem. Eu sei que quem brigou comigo foi o menino assustado, perdido, querendo jogar pedras no céu. Mas essa rebeldia toda era prá chamar atenção do Pai; talvez por já querer voltar para casa, e tivesse vergonha de pedir, ou dizer que estava perdido. Mas Ele sabia, sabia com o amor com o qual Ele sempre te amou e cuidou. Então, na hora certa - não na da médica- Ele te carregou no colo, pois já tinha pronta a tua morada; e, hoje, mais cedo, depois de te sepultar, quando me deu uma saudade aguda, eu me disse logo em seguida, 'ah...eu tava esquecendo... depois a gente se encontra', pois o Abbá me garante que tem lugar para todo mundo, que Sua casa é maior que o Universo. É do tamanho do Amor. Assim, segui meu caminho e fui comprar umas coisinhas para comer, afinal, não comia quase nada desde ontem. Só emoçao. Por vc. Precisava dar uma aterrissada e cuidar do corpitcho aqui, como diz seu amigo, agora gnóstco, Marcos Araújo. Porque meu amigo...ninguém é de ferro. Vc sabe muito bem. Ah, sabe. E é bom que seja assim, afinal, ferro pesa muito para ascender aos céus. Sendo assim, está tudo muito bom. Por isso Deus descansou depois de Seu trabalho. Até um dia, amigo.
PS. Vc acha que pintei um quadro teu mais bonito porque vc partiu? Claro que não! ainda que isso fosse justificado - quase sempre por nossas culpas conscientes ou inconscientes - mas não é o caso. Cada palavra aqui, do que vivi com vc é verdadeira. A fase dos seus descaminhos, dos quais não participei, nada posso dizer; diga quem quiser, mas seja de uma forma ou de outra, o amor que ardia em seu coraçao jamais deixou de existir. Nem agora.Teu fruto permanece.Teus filhos hão de evidenciar o que digo, sobretudo Diego e, para completar essa ridícula (porque atrasada) mas real (porque sincera) homenagem, repito o que Thiago me respondeu quando disse a ele que Silvinha comentou que vc falava muito de nós para ela, evidenciando para mim, teu carinho por nós dois. Ele simplesmente falou: eu nunca tive dúvidas do amor dele. Leve isso com vc também. É muito mais do que tudo o que tentei te dizer aqui, com tantas palavras.
Tua amiga de sempre