Que sentimento devemos ter diante de fatos que, mais uma vez, se apresentam a nós? Quais sentimentos que, de fato, nos chegam à alma, ao coração, diante de tanta dor mostrada como manchete de jornal; como material de maior audiência e melhores destaques do dia? É certo que o assunto é de absoluta relevancia para a imprensa, mas ajudar a impedir o ocorrido não seria relevante tbém? Ou será mais fácil mobilizar uma grande equipe todo início de ano para narrar 'ao vivo' as dores alheias, do que cobrar os descasos governamentais dos descarados que se elegem e se reelegem à custa da desgraça dos menos favorecidos? Por que não cobrar daqueles que tendo poder para fazer alguma coisa antes, nada podem depois de instalada a dor e a tragédia? Confesso que todos os sentimentos já se revezaram dentro de mim, deixando um rastro de frustraçao e anestesiamento que, sinceramente, muito me entristece. Como aceitar tamanha tragédia anunciada? Pior. Repetidamente anunciada. Falam em números; ontem girava em torno de 550 mortos, hoje 700, talvez... Falam em caminhões cheios de corpos; mostram fotos de 'antes e depois', mas e aí? Até parece que as manchetes já estavam prontas. O que parece que se esquece, é que esses números de que tanto falam, são pessoas que há poucos dias estavam vivendo suas vidas como qualquer um de nós; comemoraram o novo ano como todos nós. Tinham famílias, pessoas amadas, sonhos, projetos talvez, não importa; importa dizer que por puro descaso, negligencia e ignorancia elas não estão mais aqui. Famílias inteiras desapareceram, filhos ficaram órfãos, pais foram destruídos pela dor de perderem seus filhos, desabrigados agora se perguntam para onde ir... Isso tudo é o boletim de uma guerra? Relato de um tsuname ou um terremoto? Não, é o relato de uma grande vergonha que parece não ter fim no nosso país; o retrato de uma 'entidade', de um monstro faminto devorando tudo e todos por dinheiro e poder, ou pelo poder de ter mais dinheiro. Descaso, é o nome dessa tragédia. Por isso, eu me pergunto: que sentimentos devemos ter diante de tudo isso? Diante de pessoas que são arrastadas diante das câmeras de tvs para expor suas dores mais profundas que até 'parece não doer' tamanha a showmistificaçao dos fatos e do choque que elas vivenciam - o que me faz lembrar, infelizmente às avessas, o poema de Fernando Pessoa, a quem peço a triste licença poética para dizer que o pobre é um fingidor; finge tão perfeitamente não sentir a dor - a dor que deveras sente.
Jesus nos diz que pobres sempre teremos conosco, afinal, Ele sempre soube com quem está lidando, mas isso não significa que eles não tenham direito à vida e a dignidade; pelo contrário, nos pede para sempre socorrê-los. Há direitos previstos em lei, já que não são previstos no coração de quem detém o poder da ação. Mas nem isso nós vemos; leis são criadas e não são aplicadas, então novas vozes sedentas por voto falam em novas leis, que por sua vez, não serão aplicadas outra vez. O que falta mesmo é a lei da vergonha na cara. Então pergunto outra vez: o que que eu sinto agora? Já senti e sinto, tristeza, raiva, nojo, e agora... sinto culpa! Sinto culpa por não estar ajudando, por não estar doando e por não estar fazendo nada além de orar (como se houvesse força mais poderosa do que a oração) a minha oração com tão pouca fé. Sinto culpa porque os co-autores, os possíveis evita-dores dessa tragédia nos tornam cúmplices dessa vergonha; sim, porque durante todo ano, meio que ouvimos 'eles' dizerem: vamos fazer outra vez...e fazem! E nós assisstimos, assistimos e nesse muito assistir nos acostumamos, nos insensibilizamos; no máximo acompanhamos os 'números' e balançamos a cabeça, comentando trivialidades no nosso dia-a-dia. Sinceramente, não sei o sentimento certo a sentir, nem sei mais o que falar; queria mesmo é desabafar, arrumar um pouco esse novelo de emoções que se engalfinharam dentro de mim, e por não saber o que fazer, me tornam apática. Então, volto os olhos para onde nunca deveria desviá-los: para o Evangelho. É Ele que pode nos manter 'na linha' da lucidez, falando-nos da natureza humana, do previsivel das nossas ações e fraquezas; do incompreensível ao nosso olhar inexplicavelmente explicado pela fé. É somente Ele que nos ensina que diante do que não podemos fazer não nos sintamos infelizes ou indiferentes, mas gratos pelo que temos e solidários em toda e qualquer possibilidade de socorro que pudermos oferecer, ainda que seja uma fraco clamor aos céus; mas sobretudo não alimentar ódio ou rancor em nossos corações é essencial, e, para isso, é sempre necessário nos fazer a 'pergunta que não quer calar' de Jesus: sabeis de que espírito sois?
Quase concluindo este desabafo, escuto no rádio alguém responsabilizar por completo a natureza pelo ocorrido, como nunca antes no país (até pensei que fosse o Lula). Culpemos a natureza! Afinal, é fácil acusar sem o direito à defesa, não é mesmo? Mas a natureza sabe se defender, sim... e geralmente o faz de forma furiosa, como agora; coisa que não acontece com os explorados - moral e ecomicamente, falando. Até agora.
Que Deus nos dê o discernimento para saber agir quando necessário, coragem para fazer o que se pode e humildade para reconhecer que céus e terras passarão, mas Sua justiça não passará. Que assim seja. Amém.
*Por falar em Lula, lembrei-me do episódio dos passaportes diplomáticos, e o comentário feito pelo presidente da Camara à respeito do assunto: o país tem assuntos mais sérios para resolver. Certamente, sr.presidente! e aumentar vossos salários, é de todos, o mais urgente ...
Como aspirante a seguidora de Jesus deveria dizer 'que Deus tenha misericórdia de vcs, que tendo poder para algo fazer, nada fazem'. Mas não quero ser hipócrita, paro por aqui; numa outra hora certamente direi, e porque faz parte do pacote. Sermos misericordiosos. Agora, não tá dando.