sábado, 30 de março de 2013



É interessante ver como certas coisas que fizeram parte de nosso viver e que, por um motivo ou outro, se tornaram inquestionáveis, sejam impactadas por uma verdade maior. Um bom exemplo do que digo é o 'sábado de Aleluia'. Tenho poucas, mas fortes, lembranças desse dia em Manaus. A grande alegria, o ponto alto, era a feitura de um Judas para depois ser queimado. Se congelarmos essa imagem de lembranças e emoções e olharmos 'de fora', certamente ficaremos chocados ao vermos crianças sendo instruídas em nome da fé e da 'semana santa' a espancar e a queimar alguém em praça pública. Um linchamento premeditado que se dava sob o consentimento de pais cheios de orgulho por amor a Cristo. Que coisa grotesca! Que barbárie!
Hoje, independentemente da fé que alguém tenha ou não, se o fato em si já é uma aberração, imagine à luz do Evangelho! O Homem-Deus que morreu pela reconciliação da humanidade com seu Criador, perdoando tudo e a todos e cujo vizinho de crucificação, arrependido, recebe a promessa do paraíso no mesmo dia e sem o devido batismo... ser homenageado com um linchamento! É algo realmente sem noção! Uma violação ao Evangelho. Deus cria / o homem des-cria e empurra pra gente um monte de porcaria!
Gosto de pensar que o sábado de 2013 anos atrás foi um sábado de expectação. Um sábado em suspense. Um sábado que seria definitivo para a fé; para a esperança. Para a redenção do homem e para a certeza de que ele nunca mais estaria sozinho. E, por isso mesmo, o verdadeiro grito de Aleluia se daria no domingo, com a Esperança ressuscitada. Mas hoje já podemos - eu posso! antecipar essa Aleluia porque tudo 'já foi consumado'. E, graças também a Deus, o Judas não precisa mais ser queimado. Aleluia! uma outra vez.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Cantinho da Poesia


EM  MEIO  AO  CAOS, CONSTRUIR  O SILÊNCIO  
(Theresa Catharina de Góes Campos)

Um recanto íntimo que se descobre
em meio às explosões ininterruptas
de ruídos, gritos, exclamações que,
se tivessem de ser interrompidas...
nada de importante se perderia.
Um porto seguro para os sentimentos,
uma viagem sem pressa nem roteiro;
uma parada sem qualquer previsão,
por desconhecimento das escalas;
sem que visíveis, planejadas rotas,
tenham já nascido como sonhadas
peregrinações a catedrais famosas.
Em meio a tanto caos, não mais
inutilmente identificado como tal...
a descoberta deste recanto íntimo
fértil, criativo, apesar de inaudível;
de um dinamismo ímpar, original
porque na individualidade existe.
Com surpresa, vemos no coração
uma área sagrada, na intimidade
de possíveis águas tranquilas. 
Um território abençoado... onde
os sentimentos seriam os limites
únicos; uma estrada desimpedida,
onde a imobilidade ali permitida,  
nos vôos dos pensamentos íntimos,
com paciência, em meio ao caos,
não desistiu de construir o silêncio.